Brincadeira de tricampeões

Grupo de amigos que há quatro anos pratica o desconhecido shuffleboard em reuniões caseiras vence os EUA

A bandeira brasileira tremulou ao som do Hino Nacional na pequena cidade de Hemet, a uma hora e meia de Los Angeles, na Califórnia. Na tarde de 20 de agosto de 2000, o Brasil sagrava-se tricampeão mundial. Na quadra, 14 integrantes da seleção verde-amarela, oito homens e seis mulheres, choravam. Tornaram-se celebridades instantâneas nos Estados Unidos. Por aqui, só parentes e amigos comemoram o feito. Tudo porque o grupo pratica um esporte desconhecido, o shuffleboard. Semelhante à bocha, trazida ao Brasil pelos imigrantes italianos, foi introduzido no país há quatro anos e não soma mais de 100 praticantes.
Nos Estados Unidos, contudo, reúne mais de 50 mil adeptos. Atrai outros 20 mil no Canadá e vem conquistando incontáveis admiradores no Japão, na Austrália e na Espanha.
Além de desconhecer o esporte, os brasileiros só dispõem de três quadras para se aperfeiçoar: em Guaratinguetá, no Estado de São Paulo, em Niterói e Piraí, no Rio de Janeiro. Nenhuma delas é pública. Nada disso desmerece a conquista nem diminui o orgulho da equipe brasileira. "Brilhamos mais que os atletas olímpicos em Sydney", brinca a jogadora Sandra Costa, de 38 anos. "Somos nós e o Guga", exagera o técnico da seleção nacional, o médico Luis Pimentel, de 55.
O escrete canarinho leva vantagem nas competições. A idade média do time brasileiro é de 50 anos, a dos americanos 60. A primeira taça foi levantada pela equipe masculina em 1997, na Carolina do Norte. Em 1998, repetiram a dose em Goderich, no Canadá. Em 2000, levaram o tri e as mulheres debutaram na medalha de ouro. Não têm patrocínio. Pagam as próprias passagens e competem com seriedade, apesar do clima de bom humor. "Gastamos mais viajando depois do torneio", provoca Pimentel.
O shuffleboard ainda é uma diversão. Disputado entre casais amigos, anima as tardes de fim de semana. Os treinos são realizados na quadra da casa de Pimentel, em Pendotiba, em Niterói. Não faltam churrasco e cerveja. Tudo começou quando o americano Michael Zellner, oficial da Aernonáutica, pediu baixa e veio morar no Brasil. Ele apresentou Pimentel ao jogo. Os amigos aderiram. Criaram a Associação Brasileira de Shuffleboard e credenciaram-se para os torneios. Disputam três na categoria B, para jogadores iniciantes, e agora terão direito a competir na categoria A. O grupo sonha em popularizar o jogo no país. Por isso, já importou quadras portáteis de lona, que podem ser montadas em praças e clubes. Os jogadores não querem apenas as medalhas. Sonham com a fama.

Reportagem de Marcelo Gigliott, do Rio
Revista Época - Ano III, nº 139 - 15 de janeiro de 2001
Sociedade - página 68

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